Jiane, M-san!

Estou triste. Andei triste esses dias, desde que a M-san me mandou uma mensagem me avisando que ia embora do Brasil. Pra sempre.

Já fazia um tempo que não via regularmente a M-san, parei com as aulas definitivamente desde que meu bebê nasceu, mas mantinha contato com ela, afinal, éramos vizinhas, nos víamos nos meus passeios pelos arredores, às vezes eu ia ajudá-la com alguma coisa em português que ela precisasse (bem raramente nos últimos tempos), ou só tomar um chazinho na casa dela mesmo.

Daí ela mandou a tal mensagem. Vou embora dia 20 de junho pro Japão. A partir do dia 16 vou ficar em um hotel.

Ela veio me visitar uma última vez em casa. Como é duro gente que não abraça e beija, né? Eu não me aguentei, abracei bem forte mesmo kkkkkk.

Ainda pensei em perguntar que horas exatamente ela ia sair de casa no dia 16 pra eu ir falar tchau, mas desisti. Achei que era invasão demais.

No dia 20, saí pra dar uma volta e pensei nela na hora que estava na porta. Será que já estava no avião? Será que ainda estava por aqui? E eis que EU VEJO A M-SAN! Ela tinha vindo pegar as últimas coisas, entregar as chaves e pegar o carro pro aeroporto! Deu tempo de vê-la mais uma vez, tirar uma última foto e abraçá-la. Dizer um “nos vemos em breve”. Agradecer por tudo.

Me lembrei de quando a expatriada era eu. É duro dizer adeus pra pessoas que vão morar tão longe. T^T [Fora a M-san, uma outra vizinha Venezuelana foi-se embora de vez. Tá difícil!]

Feliz Ano Novo!

Olá! Feliz Ano Novo!

Vejam só que coisa, esse ano eu recebi um presente de um primo japonês do meu pai lá de Okinawa. Uma regata linda, com uma estampa que achei bem japonesa, fui ver a marca – UNIQLO, velha conhecida dos tempos de China, lugar onde mais comprei roupa durante muito tempo – tem como não amar?

Enfim, tinha que mandar uma mensagem para ele de agradecimento (o certo, na verdade, era todo ano mandar cartão de Natal, a gente trocava cartões com eles quando era criança, vinham uns cartões LINDOS, coloridos, escritos em japonês, coisa de louco, mas depois a tradição meio que se perdeu…) então pedi à M-san que me ensinasse a escrever “Feliz Ano Novo”.

Na verdade, eu já tinha em mente que ela ia me mostrar o que eu aprendi em casa e repetido ostensivamente todo reveillon:

新年おめでとうございます。 Shinnen omedetou gozaimasu.

Mas eis que ela me fala:

あけましておめでとうございます。Akemashite omedetou gozaimasu.

Lógico que eu perguntei do meu shinnen omedetou e ela falou que também estava certo, porém era menos comum que o akemashite dela. (Ah, e detalhe que eu nunca tinha pensado, o shinnen vem do mandarim, xīnnián.)

Assim é aprender japonês, sempre uma novidade, até no que eu tinha certeza. あけましておめでとうございます!

Aula 27/08/2013: Kanji x Hanzi

Estava lendo o mesmo livro infantil da aula passada com a sensei e notei que a falta de kanjis me atrapalha muito no entendimento das coisas. Como o livro é para crianças, praticamente não tem nada escrito em kanji, só hiraganá e katakaná e, apesar dos alfabetos estarem voltando aos poucos, eu leio todos os sons com dificuldade e ainda não entendo nada.

Tinha lá no meio uma palavrinha que a sensei falou que eu já tinha aprendido, fiquei matutando, matutando, e nada, daí ela falou o que significava e eu pensei: pô, se fosse escrito em kanji eu saberia na hora.

Então fiquei com isso na cabeça, que talvez aprender o kanji direto, sem intermediários, fosse mais fácil (para mim, com certeza seria, dado que eu já sei um tanto de hanzis, o que dá uma boa ajudada no entendimento dos kanjis). Existem linguistas que dizem que a escrita com kanji/hanzi é a maneira mais próxima de como a língua é organizada na nossa cachola (e pra quem acha que uns milhares de caracteres é coisa demais pra aprender, quem sabe uma outra forma de pensar seja a panaceia da dislexia, tão comum por estas bandas.)

Em tempo: a professora não me priva dos kanjis, pelo contrário, ela sempre me ensina todos, dos mais simples aos mais difíceis, sem dó e sempre pergunta: é assim em chinês também? Gosto muito de conversar sobre isso com ela.

Aula 13/08/2013: deuses americanos

Eu estou lendo Deuses Americanos, do Neil Gaiman, e, meodeos, como eu não li isso antes? Bem no comecinho do livro, existe uma citação a Richard Dorson:

Uma questão que sempre me intrigou é o que acontece com os seres demoníacos quando os imigrantes se mudam de sua terra natal. Americanos de ascendência irlandesa lembram-se das fadas, americanos de ascendência norueguesa, das nisser, americanos de ascendência grega, das vrykólakas, mas só no que diz respeito a eventos acontecidos no Velho Continente. Certa vez, quando perguntei por que tais demônios não são vistos nos Estados Unidos, meus informantes riram confusos e disseram “Eles têm medo de cruzar o oceano, é muito longe”, chamando atenção para o fato de que Cristo e os apóstolos nunca estiveram na América.

Fazer aulas de japonês é sempre fazer uma espécie de análise, de repensar nos meus avós, e como eles criaram meus pais, que por fim me criaram. Se mesmo depois desse tempo todo eu não souber falar nem uma palavrinha a mais em japonês, com certeza só por esses questionamentos já valeu a pena.

Então eis que no final das aulas quando sobra um tempinho a professora e eu lemos um livrinho infantil bem tradicional do Japão (ぐりとぐらのうたうた12つき). Ele descreve os eventos mês a mês que acontecem no Japão e em julho tem o tal do Tanabata Matsuri. Hoje eu sei o que é Tanabata Matsuri (e tantas outras festividades) porque eu fiz aula de japonês no passado, mas eu nunca comemorei isso em família, mesmo sendo descendente de japoneses por parte de pai e mãe. Eu me pergunto se meus avós comemoravam a data no Japão e por que Orihime e Hikoboshi no nosso caso não cruzaram o oceano. Será medo mesmo? Porque aqui também podemos ver a Via Láctea em julho, basta sair um pouco de perto das luzes da cidade. (Desconfio que meus avós não comemorassem a data porque viveram tempos difíceis no Japão, de guerra, de falta de tudo, mas ainda assim soubessem o que é Tanabata Matsuri.)

Na verdade, eu sinto isso em quase tudo no que toca a cultura japonesa “típica”. Todos os festivais, as comidas, a religiosidade, os trejeitos, o que se esperaria de um japonês são alienígenas no que eu tenho como herança familiar. Às vezes eu penso que meus avós não são/eram nem um pouco japoneses. É engraçado isso, com as aulas de japonês, e até mesmo a minha breve passagem pelo Japão em 2009, eu venho aprendendo o que é ser um japonês, e isso é totalmente diferente do que os meus avós são/foram.

Não é à toa que existam muitas diferenças (e até desavenças) entre os membros não tão distantes da minha família no Japão (tios e primos de primeiro grau do meu pai) e no Brasil. Em apenas uma geração, foram criados em culturas totalmente diferentes das de seus pais (poderia apostar que esses primos do Japão comemoram o Tanabata Matsuri hoje em dia) e completamente diferentes entre si, eles virando japoneses dos dias de hoje e nós, nos tornando brasileiros. Enquanto nós esperamos que eles se comportem como meus avós, eles esperam que nós sejamos japoneses contemporâneos como eles. Penso que, para eles, é como se não tivéssemos evoluído, ainda abraçamos os velhos deuses, ao mesmo tempo em que conhecemos novos deuses locais, enquanto para nós, eles deixaram de ser o que tínhamos como verdadeiro, essencial, nossas raízes, eles “traíram o movimento”.

Em alguma aula passada a professora estava contando dos filhos, ela tem uma filha que começou a estudar nos Estados Unidos e agora frequenta uma escola americana aqui no Brasil. Ela nunca estudou em uma escola japonesa. Ela participa de um time de cheerleaders. Ela gosta de comer feijão carioquinha e tinha vergonha de levar sushi de lanche quando estudava nos Estados Unidos. Ela às vezes acha a escola daqui pesada. Epa, como assim ela pode achar a escola no Brasil difícil, se falam tanto que as escolas japonesas são a epítome da escola hard-core, com aquelas criancinhas se suicidando de tanto estudar etc e tal? A escola aqui devia ser super fácil pra ela. Eu juro que eu falei isso. E também na falta de sensibilidade total eu também perguntei se ela achava que ia voltar pro Japão e frequentar a escola lá, se eles tinham planos, se achava que os filhos iam se readaptar.

Na aula de hoje a professora me perguntou como eu fazia uma certa coisa e eu expliquei, daí ela falou: “ah, igual como se faz no Japão”, ao qual respondi: é assim que minha mãe faz, que aprendeu com a mãe dela, talvez não seja como todo mundo no Brasil faz, mas é como eu aprendi pelo menos :)

Talvez essa filha da minha professora seja o que meus avós são/foram. Eu sou o que a sua família brasileira será daqui a alguns anos, professora, se vocês continuarem por aqui. Saiba que deu tudo certo, tanto pra quem ficou, como pra quem cruzou o oceano.

Férias

Passando por aqui pra avisar que estou de férias das aulas de japonês, por isso faz tempo que não tem post.

De bônus de férias, um vídeo da Lia fazendo aquelas comidinhas japonesas de brincadeira (mas que são comestíveis):

Fico imaginando se eu tivesse acesso a isso na minha infância! Já me achava muito fazendo leite com achocolatado em um liquidificador de brinquedo que ganhei da minha avó e que gastava pilha que era uma beleza :D

Yamaguishi

* Tóc, tóc, tóc * (pode ser que a pessoa bateu a campainha, mas na minha cabeça foram batidas na porta pro texto ficar ainda melhor)

De dentro de casa, eu acho estranho. Ninguém da portaria ligou, quem poderia ser a essa hora do dia?

– Quem é?

– Yamaguishi.

Tremo nas bases. Ainda sem abrir a porta, eu falo:

– Mas eu não pedi nada do Yamaguishi.

A pessoa do outro lado não fala nada. Eu rogo pragas ao dono do apartamento que não botou um olho mágico na porta. Agora vou ter que abrir sem saber quem tá do outro lado. Penso, vou abrir só um palmo pra dar pra olhar, se for algo perigoso eu deixo o pé prendendo e a perna já pronta pra chutar a porta e fechá-la.

Respiro, abro. Um senhor com umas caixas de plástico com legumes e frutas me olha.

– Acho que o senhor bateu no apartamento errado, aqui é o bloco XYZ, número tal.

– Ah, acho que me enganei então. Desculpe.

Ele vai embora e eu fico morrendo de medo. Será que as tais Little People o enviaram para me espiar? O que eles querem comigo? Intimidação?

Não, não vou parar de falar sobre 1Q84.

Aula 07/05/2013: o vermelho do olho

Uma criança no Japão te mostra o “vermelho do olho”, o que será que isso significa?

Desenho mostrando pálpebra inferior sendo puxada pelo dedo para mostrar o "vermelho do olho".

Segundo o que aprendi hoje, significa que você não é bem vindo na brincadeira, um “sai pra lá” com um gesto bem simples (e malvado).

Interessante que o gesto é bem antigo, consta até em um haiku:

鳴く猫に

赤ん目をして

手まりかな

Interrupções e línguas

As frases em japonês não mantêm a mesma ordem das palavras em português. O verbo, que nós falamos no meio da frase, em japonês aparece no final. Isso implica em ter que esperar a pessoa falar a frase inteira pra entendê-la em japonês, mas não em português porque geralmente o que vem depois do verbo é só complementar. Logo, o normal do japonês é nunca interromper uma pessoa falando.

Eu percebo isso claramente quando eu dou aula para a M-san. Ela não se afoba nas conversas, nunca me interrompe, enquanto eu sempre faço isso e vivo pedindo desculpas, falo pra ela continuar, essas coisas.

Pensando um pouco mais sobre isso, eu decidi usar uma regra para as aulas: quando eu estou tendo aula de japonês, eu me seguro pra não interrompê-la de jeito nenhum, me forço mesmo. Já quando eu estou dando aula de português para ela, eu sou do jeito que sou, interrompona, o meu normal cultural.

Aula 16/04/2013: Origami

Hoje a aula foi de palavras relacionadas a origami, 折り紙 (おりがみ).

Toda aula de japonês, baseada em minha experiência com a professora atual e com a B-sensei, sempre envolve os aspectos culturais (e o origami é uma parte bem importante). Isso também significa que o aprendizado de japonês tem muitos momentos de trabalhos manuais, (e música, comida, festas tradicionais) que eu adoro.

O vocabulário que “aprendi” hoje foi beeeem puxado para uma quarta aula, mas são coisas úteis pra conseguir comprar um livro de origami inteiro em japonês e entender tudinho porque, apesar das palavras serem de um nível muito mais alto do que o meu básico, elas são poucas e se repetem em praticamente todas as páginas.

Começando pelo começo:

  • O kanji 折 (お), significa dobrar.
  • O kanji 紙 (がみ) significa papel e, se não me falha a memória, também se usa pra cabelo.

Existem basicamente duas formas de se dobrar um origami:

  • Dobrar pra dentro, formando um vale, 谷折り (たにおり). O kanji 谷 é o que significa vale.
  • Dobrar pra fora, formando uma montanha, 山折り(やまおり). O kanji 山 é o que significa montanha (e dá pra ver a montanha perfeita aí, repare!)

Existe uma espécie de “convenção” de todos os livros de origami para mostrar como dobrar, virar, etc, então as duas formas acima são representadas assim:

  • ……… (uma linha pontilhada): 谷折り. Para falar linha pontilhada em japonês é 点線(てんせん).
  • ._._._ (uma linha pontilhada e tracejada): 山折り.

Verbos que aparecem bastante:

  • しっかり折る, vincar.
  • 合わせる(あわせる), juntar.
  • 裏返す(うらがえす), virar (normalmente representada por uma curva em forma de mola com uma seta na ponta).
  • 開く(ひらく), abrir
  • 引っぱり出す(ひっぱりだす), puxar pra fora
  • つまむ, difícil explicar essa hein… beliscar talvez, puxar com a ponta dos dedos.

Outras palavras:

  • 三角(さんかく), triângulo.
  • 四角(しかく), quadrado.
  • 真ん中(まんなか), centro.
  • 半分(はんぶん), meio, metade.
  • 斜め(ななめ), diagonal.
  • 上(うえ), para cima.

E, no final, é só falar できあがり, terminado!

Aula 02/04/2013: pronúncia errada

Essa aula eu aprendi os meses do ano, 一月 até 十二月, e em japonês é fácil, dá pra aprender todos os meses numa aula só.

A palavra mês é pronunciada gatsu mas eu tenho a impressão que na minha família as pessoas falam guatsu. Tipo shoguatsu (ou shouguatsu, não sei) pra festa de ano novo. (Mãe, é isso mesmo ou eu estou viajando?)

Sempre que rola umas coisas assim eu tenho dúvida se é porque na minha família se fala em okinawano ou porque as pessoas falam japonês errado mesmo.

Eu lembro que quando estudei japonês da outra vez, eu falei pra minha mãe alguma outra palavra e ela insistiu que a minha avó falava de outro jeito, com algum u a mais no meio e ela não se conformava, até que perguntamos para a minha tia que estava estudando japonês (e cujo marido também fala japonês e não é descendente de okinawanos) e ela falou que o jeito que eu aprendi era o certo e que a minha avó pronunciava errado.

Acho isso engraçado porque a minha avó materna sempre se orgulhou de ter estudado japonês e achava que japonês e não okinawano era o que a gente deveria aprender e falar. (Vejam só a “lavagem cerebral” contra a língua local desde essa época…)